A Noite

De à sombra do futuro

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A noite

Iran do Espírito Santo


Um retângulo verde, um losango amarelo, um círculo azul, uma faixa branca com palavras escritas em verde e, espalhados pelo círculo azul, vinte e sete pentagramas brancos. Vinte e sete pentagramas brancos sobre um fundo preto. Nenhum losango, nenhum círculo, nenhuma faixa. A única palavra, ou melhor, o título: a noite.

Apagam-se os símbolos de identidade nacional, resta somente aquilo que não lhe é realmente próprio, afinal as estrelas não só não estão em solo brasileiro — ao contrário dos recursos naturais energéticos, valiosos, como os minérios (ouro), a natureza (as florestas e as matas) e as águas (costas e rios) — mas são igualmente visíveis de qualquer lugar do hemisfério sul.

A Noite foi exibida pela primeira vez numa mostra do artista ocorrida no Centro Cultural São Paulo (CCSP) em 1998. A importância de citar esta data reside no fato de ter tido sua especificidade desmentida pelo próprio artista, que declarou que a obra já existia em projeto pelo menos dez anos antes de ser realizada*; de onde podemos inferir que ela sinaliza uma condição histórica mais abrangente, não exclusiva de 1998. E cita-se o local por este sim ter despertado, segundo o próprio artista*, um desejo de reflexão sobre a condição daquela instituição [1]. Mas quais são essas condições?

A noite, ao contrário do que há entre aurora e crepúsculo, é o momento de escuridão, insegurança, medo, incerteza. Ainda assim, é à noite que segue o dia, que suprime esse momento. Mas a bandeira que Iran do Espírito Santo levanta é dura, rígida, fixa, não se move, não tremula, não dá sinais de que deverá mudar tão cedo, figurando talvez uma noite muito mais longa do que se esperaria.

Certamente encontraremos aqueles otimistas que preferirão achar em A Noite suas promessas mais positivas. De que o início do dia se aproxima, de que as estrelas guiam os viajantes, garantindo o destino deles. Ou que a beleza sedutora da obra evoca com precisão a dimensão sublime de uma noite estrelada. No entanto, o próprio artista talvez não se encontre entre eles, mas sim no “país que é eternamente noite”*.


Nota*: as declarações do artista sobre a obra podem ser encontradas ao fim de Samad, Daniella Elgul. Faria, Neide Antonia Marcondes de (orient.) A produção plástica dos anos 80 e 90 no repertório de Ana Maria Tavares e Iran do Espírito Santo, São Paulo, 2002.

[1]O CCSP é um grande centro cultural ligado à prefeitura de São Paulo e imerso numa forte lógica estatal burocrática.