Crítica do Milagre

De à sombra do futuro

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Crítica do Milagre

Waltercio Caldas


Etmologicamente, a palavra crítica deriva do grego “Krimein”, termo que possui estreita relação com a palavra “Krisis” e que significa quebrar, dividir em pedaços. Nesse sentido, criticar alguma coisa significaria despedaçar aquilo que observamos mediante a análise de suas partes determinantes. Colocar em crise tanto o objeto quanto a ideia que dele previamente fazemos para, só a partir daí, livres de todo condicionamento anterior, traçarmos sobre ele um juízo. Logo, pode-se concluir ser essencial à crítica duas coisas: primeiro, um juízo apto à análise, segundo, um objeto a ser dissecado.

O estranhamento de Crítica do Milagre provém precisamente do caráter paradoxal de sua proposição, ou seja, de sua tentativa de analisar aquilo que, por excelência e definição, é “não-analisável”, pois da ordem do divino. Frente a essa indefinição, o artista opera no sentido oposto daquele do positivista: não se importa com o desvelamento da razão subjacente ao fenômeno, mas sim com aquilo que o define enquanto tal, ou seja, sua opacidade, seu sentido de aparição pura e unilateral. Resta assim ao autor a positivação do silêncio de seu objeto: incessante reafirmação da negatividade de seu conteúdo mediante a exposição exemplar do caráter “indivisível” de um discurso que jamais se realiza ou se expõe. “Crítica do milagre” torna-se, assim, uma obra inexoravelmente fechada. Volume do qual nunca conseguimos passar da capa. Livro cuja página de rosto, repetida incessantemente, nos posta como o evangelista em Damasco: cegos frente à face do próprio Deus.

Tal qual exposto por Caldas, o milagre opera aqui de modo semelhante ao da especulação financeira. Ganha corpo e relevo exatamente ali onde nega acesso a sua estrutura interna, sua razão de ser. Conseguindo deste modo operar (milagrosamente, redundantemente diríamos) sobre o mundo concreto e objetivo à revelia de qualquer lastro propriamente material. Torna-se explícito, assim, o modo como, na economia dos fatos, prescidem os objetos de razão e motivo para atuar concretamente sobre o palco da existência. Pois, à semelhança da vontade divina, é exatamente na condição de verbos que eles encarnam sua face capital.