O termômetro da Bienal de São Paulo

De à sombra do futuro

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O termômetro da Bienal de São Paulo

Nizan Guanaes


Arte é um investimento financeiro e social; não há país desenvolvido sem um próspero mercado de arte



ARTE É um termômetro tão bom quanto qualquer outro para medir o ânimo de uma economia. O valor da arte chinesa, por exemplo, antiga e contemporânea, explodiu com a reemergência econômica do país.

Mas a arte não é só um termômetro da economia -ela deve ser também um motor de desenvolvimento. Londres, Paris, Nova York e Los Angeles são exemplos de como a arte significa riqueza e oportunidades. Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo também, numa escala menor, mas subindo com o Brasil. É um processo que já começou, refletido nos preços das obras dos artistas brasileiros (uma inflação do bem) e no aumento do público interessado em arte.

Em maio, a SP Arte, maior feira do setor no Brasil, no prédio da Bienal no Ibirapuera, registrou vendas de US$ 17 milhões (alta de 15% em relação a 2009) e 16 mil visitantes (30% vindos de outros Estados).

Mais cedo do que tarde, mais empresas brasileiras descobrirão como arte é um excelente investimento financeiro e social. Não há nação desenvolvida que não tenha um próspero e estruturado mercado de arte. Não estou defendendo que a arte seja apenas mercadoria -ela é muito mais que isso, claro. Mas, os puristas que me desculpem, ela é também mercadoria. E ganha muito ao sê-lo, pois a alternativa seria uma dependência quase exclusiva do Estado ou de poucos mecenas.

E aqui cabe um esclarecimento: neste ano estou no conselho da Bienal de São Paulo. Sou parte interessada. Interessadíssima. Trabalho para que a Bienal de arte mais importante do país recupere vigor e frescor com o Brasil. Depois da Bienal do Vazio de 2008, vamos encher o pavilhão de Niemeyer no Ibirapuera com 159 artistas, a partir de setembro. Esse evento é tão obviamente importante para São Paulo e para o Brasil que não foi difícil convencer grandes empresas como Itaú, Fiat, Oi, Votorantim, Dasa e muitas outras a apostar em sua retomada.

A condução de Heitor Martins à presidência da Fundação Bienal ajudou nesse processo de aproximação com parceiros privados. Como executivo da consultoria financeira McKinsey, Martins conhece bem as necessidades de transparência e gestão que o mundo corporativo exige de seus parceiros. O Ministério da Cultura segue como apoiador vital da maior Bienal de arte do Brasil, mas, como tudo no novo país que estamos criando, o papel do setor privado e de suas grandes empresas é fundamental.

Enquanto para a Bienal do Vazio foram arrecadados menos de R$ 9 milhões, para a edição deste ano contaremos com mais de R$ 26 milhões. A diferença de público deve ser a medida entre o vazio e o cheio: de 161 mil visitantes na edição de 2008, esperamos agora a visita de 1 milhão de pessoas. A ebulição brasileira estará mais do que representada na exposição deste ano, com mais de 50 artistas do nosso país. E alguns outros mais, se as estimulantes ameaças de protesto-performance na porta do pavilhão se concretizarem. Essa arte que emanará do Ibirapuera nos próximos meses reverberará muito além do mundo ainda restrito da grande arte. As obras dos artistas de todo o globo aqui expostas influenciarão e estimularão a moda, a arquitetura, a música, a literatura, o cinema, toda a nossa indústria do entretenimento. E como é importante estimulá-la. A indústria cultural brasileira terá papel fundamental no nosso desempenho na Copa do Mundo de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio.

Os dois megaeventos esportivos serão as maiores oportunidades de divulgação do novo Brasil ao mundo. Nessa modalidade, nossos artistas serão parte fundamental do time brasileiro.

A ebulição cultural é tão importante porque ela dá cara, voz, cor, traço, textura às transformações socioeconômicas que vivemos. Ela gera riqueza material e espiritual e, em seus melhores momentos, nos eleva aonde queremos chegar. São Paulo e Brasil merecem neste ano uma Bienal do tamanho de nossas conquistas e de nossas aspirações. Em 2010, grande é bonito. Vamos encher o prédio.


NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças, a cada 15 dias, nesta coluna.



originalmente publicado em: Folha de São Paulo, terça-feira, 24 de agosto de 2010, caderno Mercado