Projeto e destino

De à sombra do futuro

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Projeto e destino

Tiago Alem Santinho


Quando no mês de abril desse ano, em tons de denúncia, o jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria chamando atenção para o fato do MASP estar se utilizando de dois dos cavaletes de vidros projetados por Lina Bo Bardi nos anos 60 como biombos separando a cozinha e a fila do caixa de seu restaurante interno, viu-se nascer um movimento de indignação por parte da classe artística e intelectual. Como não poderia deixar de ser, esta compreendia tal uso não somente como um desvio do sentido original do projeto, que era o de servir de base para a exposição das obras do museu, mas, para além disso, como um verdadeiro ultraje a todo o legado da arte moderna, ou, com declarou por ocasião da matéria o arquiteto Marcelo Ferraz, “uma violência contra um ideário modernista”. A situação terminava assim por trazer à tona exemplarmente as contradições vivenciadas pelo projeto moderno no dias de hoje: sua condição de ideologia rebaixada e deslocada sem lugar na lógica político-social atual.

A obra de Santinho se propõe a analisar esse sentido de aviltamento do projeto moderno. Toma por referência as maquetes de Walter Gropius para a construção de casas populares na Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial, reconstruido-as fielmente. À semelhança da situação vivenciada pelos cavaletes de Lina Bo Bardi, no entanto, as submete a uma nova condição: reposiona-as na vertical de modo que ganhem um outro sentido de uso, um novo destino, mais mundano e menos heróico do que aquele original. Convertidas em estantes abarrotadas de livros e objetos banais, tais maquetes nos surgem agora não mais como projeções de algo dado ao futuro, mas como peças urgentemente presentes, objetos concretos destituídos daquela dimensão abstrata de “ser mais do que se é” própria do efeito de escala.